
Resumo Rápido (TL;DR):
- A TPM não é “psicológica” nem frescura: cerca de 75% das mulheres em idade reprodutiva relatam ao menos um sintoma na fase lútea, e 3 a 8% preenchem critérios para o transtorno disfórico pré-menstrual (TDPM), segundo o ACOG.
- Cálcio tem a melhor evidência de todos os nutrientes: um estudo com 497 mulheres mostrou redução de 48% na pontuação total de sintomas com 1.200 mg/dia (Thys-Jacobs, Am J Obstet Gynecol 1998; revisão Cochrane 2000).
- Magnésio + vitamina B6 reduz retenção de líquido, cólica e irritabilidade em dois ensaios clínicos (Walker 1998; Fathizadeh 2010) — a combinação funciona melhor que o B6 isolado.
- Vitex (chasteberry) é a erva com melhor evidência, mas tem contraindicação séria: não pode ser usada junto com anticoncepcional hormonal, em tratamento de fertilidade ou na gravidez.
- Prímula, “teste de saliva” e megadoses de B6 não se sustentam em ensaios clínicos. Você não precisa comprar nada disso.
A TPM costuma ser tratada como algo que se “aguenta” — uma semana por mês em que a mulher é outra pessoa, dorme mal, sente dor, inchaço, desejo por doce e uma irritabilidade que ninguém ao redor entende.
O problema dessa narrativa é duplo. Primeiro, ela normaliza um sofrimento evitável: existe intervenção com evidência clínica robusta, e a alimentação está no centro dela. Segundo, ela empurra a pessoa para o lugar errado — a prateleira de suplementos “para TPM”, cheia de produtos sem nenhum ensaio clínico por trás.
Este guia separa o que tem dado real do que é marketing. Você vai sair daqui sabendo quais nutrientes têm evidência, em que dose, com qual estudo — e o que faz cada fase do seu ciclo valer mais a pena.
TPM Não é Frescura: É um Diagnóstico Com Critérios
A síndrome pré-menstrual (SPM) é um conjunto de sintomas físicos e emocionais que aparece na segunda metade do ciclo — a fase lútea — e desaparece nos primeiros dias da menstruação.
O que define a TPM não é “sentir algo”, é o padrão temporal: os sintomas surgem depois da ovulação, pioram perto da menstruação e aliviam quando ela começa. Se a irritabilidade ou a tristeza estão presentes o mês inteiro, não é TPM.
| Categoria | Sintomas típicos | Frequência estimada |
|---|---|---|
| Físicos | Inchaço, retenção de líquido, mastalgia, dor de cabeça, cólica | Muito comum |
| Emocionais | Irritabilidade, choro fácil, ansiedade, tristeza, impaciência | Muito comum |
| Cognitivos | Dificuldade de concentração, “névoa mental”, indecisão | Comum |
| Comportamentais | Desejo por doce/salgado, insônia, isolamento social | Muito comum |
| Grave (TDPM) | Sintomas que incapacitam, com prejuízo funcional real | 3 a 8% (ACOG) |
O número que importa: o American College of Obstetricians and Gynecologists estima que até 75% das mulheres experimentam algum sintoma pré-menstrual, e que 3 a 8% têm TDPM — a forma grave, com critérios diagnósticos próprios no DSM-5. O TDPM não responde a ajuste alimentar sozinho: tem tratamento específico, e é justamente por isso que reconhecê-lo importa.
Há ainda um detalhe fisiológico que quase nunca é explicado: o gasto energético de repouso sobe na fase lútea, algo em torno de 5 a 10% (Webb, Am J Clin Nutr 1986; Henry, 2003). Não é imaginação — seu corpo realmente pede mais comida nessa semana. Quem ignora isso e corta mais calorias justamente na fase lútea briga contra a própria fisiologia, o que costuma intensificar o desejo por doce e a irritabilidade.
Os 4 Nutrientes Com Evidência Real Contra a TPM
Antes de qualquer suplemento “milagroso”, estes quatro têm corpo de evidência publicado. Nenhum é panaceia; todos têm resultado mensurável.
| Nutriente | Dose estudada | Sintomas com melhora documentada | Evidência principal |
|---|---|---|---|
| Cálcio | 1.000–1.200 mg/dia | Dor, retenção, desejo por comida, humor | Thys-Jacobs, Am J Obstet Gynecol 1998 (n=497) + Cochrane 2000 |
| Magnésio | 200–360 mg/dia | Retenção de líquido, cólica, ansiedade, sono | Walker, J Womens Health 1998 (n=32); Fathizadeh 2010 (n=126) |
| Vitamina B6 | 50–100 mg/dia | Irritabilidade, humor, enxaqueca pré-menstrual | Wyatt, BMJ 1999 (revisão sistemática) |
| Vitamina D | Ingestão dietética adequada | Risco global de desenvolver TPM | Bertone-Johnson, Arch Intern Med 2005 (Nurses’ Health Study II) |
Cálcio: o nutriente com a melhor evidência de todos
Se existe um nutriente que merece o primeiro lugar nessa lista, é o cálcio.
O estudo de referência é um ensaio multicêntrico com 497 mulheres que receberam 1.200 mg de carbonato de cálcio por dia ao longo de três ciclos menstruais. O resultado principal não foi modesto: redução de 48% na pontuação total de sintomas comparado ao placebo (Thys-Jacobs, Am J Obstet Gynecol 1998). Houve melhora em retenção de líquido, dor, desejo por comida e humor — os quatro domínios de uma só vez.
A revisão Cochrane publicada em 2000 sobre suplementação de cálcio na TPM chegou a conclusão favorável, com a ressalva metodológica típica: os estudos eram pequenos, e o tamanho do efeito real pode variar.
A parte prática: 1.000 a 1.200 mg/dia é a meta. Você chega lá com três porções diárias de lácteos, ou combinando tofu, sardinha com espinha, tahine, brócolis, couve e amêndoas. Se for suplementar, fracione as doses — a absorção cai bastante acima de 500 mg de uma vez.
Por que dieta e não só pílula: o cálcio alimentar tem efeito sobre a TPM ligado também ao metabolismo da vitamina D e ao paratormônio, que se alteram na fase lútea. Você move o sistema inteiro, não um único ponto.
Magnésio e B6: a dupla que reduz retenção e irritabilidade
O magnésio tem dois papéis úteis aqui: antagoniza o sódio (logo, reduz inchaço) e participa da regulação de GABA e serotonina — os dois neurotransmissores mais implicados na irritabilidade pré-menstrual.
O ensaio de Walker (J Womens Health 1998) deu 200 mg/dia de magnésio a 32 mulheres e mostrou redução mensurável da retenção de líquido. Doze anos depois, Fathizadeh (2010) testou em 126 mulheres algo mais interessante: magnésio 250 mg + vitamina B6 40 mg contra B6 isolado. A combinação foi superior em todos os parâmetros avaliados. Ou seja: a dupla vale mais que a soma das partes.
A dose de magnésio com evidência fica entre 200 e 360 mg/dia. Duas observações honestas:
- Forma importa. Citrato e bisglicinato são bem absorvidos; o óxido é barato mas pouco disponível e tende a soltar o intestino — o que, se você já tem cólica, não ajuda.
- Acima de ~350 mg/dia de suplemento, o efeito laxativo é comum. E quem tem doença renal não deve suplementar sem orientação médica, porque o rim é quem elimina o excesso.
Sobre a vitamina B6: a revisão sistemática de Wyatt (BMJ 1999) encontrou eficácia provável para sintomas de humor, em doses de até 100 mg/dia. O detalhe que quase ninguém menciona é o teto: doses acima de 200 mg/dia por tempo prolongado podem causar neuropatia periférica — formigamento e dormência nas mãos e pés. A faixa útil (50–100 mg) está confortavelmente abaixo desse risco, mas fique atenta a produtos com “500 mg de B6” na fórmula.
Vale conhecer as diferenças entre as formas de magnésio antes de escolher um suplemento — o guia dos tipos de magnésio e seus efeitos sobre sono e ansiedade explica por que o óxido e o bisglicinato não são intercambiáveis.
Vitamina D: fator de risco e não só coadjuvante
Análises da Nurses’ Health Study II, coorte com cerca de 3.000 mulheres, encontraram associação entre maior ingestão de cálcio e de vitamina D e menor risco de desenvolver TPM (Bertone-Johnson, Arch Intern Med 2005). A associação foi consistente e dose-dependente.
Uma ressalva de rigor: isso é evidência observacional, não causal. Dietas ricas em cálcio e vitamina D tendem a ser, no geral, dietas melhores — o que embaralha um pouco a interpretação. Ainda assim, o achado apareceu em coortes prospectivas de qualidade, e reposição de deficiência de vitamina D é um alvo razoável em qualquer cenário.
Para quem quer fechar o ciclo, vale entender como interpretar seus exames de vitamina D e qual dose faz sentido suplementar.
Vitex (Chasteberry): A Erva Com Melhor Evidência — e as Contraindicações
Se você só for considerar uma erva, é essa. E o motivo é simples: o Vitex agnus-castus é a única planta com ensaio clínico de bom tamanho e resultado consistente para TPM.
O estudo de Schellenberg publicado no BMJ em 2001 randomizou 178 mulheres para extrato de fruto de Vitex ou placebo por três ciclos. A melhora nos sintomas foi significativamente superior com a erva, com efeito que se acumula ao longo dos ciclos. Uma revisão Cochrane posterior também apontou superioridade sobre placebo, com a ressalva de número limitado de ensaios.
Dose estudada: 20–40 mg/dia de extrato padronizado.
Onde está o problema: o Vitex age sobre a prolactina e a via dopaminérgica. Isso gera contraindicações que não são detalhe:
| Situação | Por que evitar |
|---|---|
| Anticoncepcional hormonal | Interferência na via dopaminérgica; risco de reduzir a eficácia percebida e alterar o ciclo |
| Tratamento de fertilidade | Ação sobre prolactina pode conflitar com medicações de indução de ovulação |
| Gravidez e amamentação | Sem dados de segurança; não usar |
| Uso de agonistas/antagonistas de dopamina | Interação farmacológica direta |
| Busca de efeito imediato | Efeito aparece em 2 a 3 ciclos, não na primeira semana |
Traduzindo: Vitex não é “chá de ervas” — é fitoterápico com mecanismo hormonal. Se você usa anticoncepcional, ele sai da lista.
Ômega-3, Gengibre e a Cólica Menstrual
Cólica menstrual (dismenorreia) é outro mecanismo: contração uterina mediada por prostaglandinas. É por isso que ela responde a nutrientes diferentes dos que atuam no humor.
| Intervenção | Dose estudada | Resultado | Evidência |
|---|---|---|---|
| Ômega-3 (EPA + DHA) | 1 g/dia por 3 meses | Redução de sintomas de TPM | Sohrabi, Complement Ther Med 2013 (n=95) |
| Gengibre | 750–2.000 mg/dia | Redução da dor em dismenorreia primária | Daily, J Altern Complement Med 2015 (meta-análise) |
| AINEs (ibuprofeno, ácido mefenâmico) | Conforme bula | Primeira linha, maior efeito | Cochrane / ACOG |
O estudo de Sohrabi deu 1 g/dia de ômega-3 (180 mg EPA + 120 mg DHA) a 95 mulheres por três meses e observou queda nos escores de TPM. É uma dose acessível — equivale a duas porções semanais de peixe gordo.
A meta-análise de Daily (2015) sobre gengibre mostrou redução de dor em dismenorreia comparável à de AINEs em alguns estudos, com qualidade de evidência baixa a moderada. Gengibre é seguro e barato, o que o torna uma adição razoável — mas não substitui o anti-inflamatório quando a dor é incapacitante.
Sobre ômega-3, vale entender a diferença entre as fontes alimentares e as formas de suplementação, e a importância da proporção EPA/DHA.
O elo com a inflamação: a prostaglandina que causa a cólica é a mesma família de mediadores inflamatórios envolvida em dor crônica. Dietas ricas em gordura anti-inflamatória tendem a reduzir a produção desses mediadores ao longo do tempo. O efeito não é da noite para o dia — é de ciclo para ciclo.
Sal, Cafeína e Álcool: O Que Piora a TPM
Aqui não há suplemento nenhum vendendo nada, só fisiologia. Na fase lútea, o eixo renina-angiotensina-aldosterona fica mais ativo, e o corpo retém mais sódio e água. Se você já está retendo, comer salgadinho na TPM é jogar gasolina.
| Fator | O que faz no corpo | Ajuste prático |
|---|---|---|
| Excesso de sódio | Somado à retenção da fase lútea, aumenta inchaço, mastalgia e sensação de peso | Reduzir ultraprocessados; aumentar potássio compensa parcialmente |
| Cafeína | Piora ansiedade, insônia e percepção de cólica; reduz absorção de minerais | Evidência isolada é mista, mas testar 1 ciclo sem cafeína após as 14h é barato |
| Álcool | Fragmenta o sono e piora o humor no dia seguinte | Evidência de relação com TPM é inconsistente; o efeito sobre sono é bem documentado |
| Açúcar refinado | Pico de glicose seguido de queda amplifica desejo por doce | Combinar carboidrato com proteína e fibra |
Um ponto de honestidade científica: a evidência sobre cafeína e TPM é mista. Um estudo prospectivo publicado no Am J Clin Nutr (2016) não encontrou associação isolada entre consumo de cafeína e risco de TPM. Mas isso é diferente de dizer que cafeína não piora sintomas em quem é sensível — e ela sabidamente reduz a absorção de magnésio, justo o mineral mais útil nessa fase.
Sobre o desejo por doce: ele tem base fisiológica. Na fase lútea há uma queda na disponibilidade de serotonina, e carboidrato é substrato para a síntese de triptofano e serotonina. O que funciona não é proibir o doce — é estabilizar a glicose e fornecer carboidrato complexo, que entrega o mesmo caminho bioquímico sem o pico seguido de queda. Quem sofre com oscilações de humor e ansiedade reconhece bem esse padrão.
Potássio: O Mineral Subestimado
Se o cálcio é a estrela, o potássio é o coadjuvante que ninguém lembra. Ele antagoniza o sódio no nível do túbulo renal — mais potássio na dieta significa menos retenção de líquido para o mesmo consumo de sal.
É também o mineral mais robusto do ponto de vista de padrão alimentar: dietas ricas em potássio (grandes volumes de vegetais, folhas, leguminosas e frutas) são consistentemente associadas a melhor saúde cardiovascular e menor inflamação sistêmica. Coortes prospectivas como a Nurses’ Health Study II associam dietas com maior teor de cálcio, vitamina D e potássio a menor risco de TPM — evidência observacional, vale reforçar, mas consistente em direção.
Fontes práticas: banana, batata-doce, feijão, lentilha, abacate, água de coco, folhas verdes escuras, tomate.
Quanto do mineral realmente é necessário e quais fontes são mais densas que a banana: o guia completo do potássio traz a tabela por porção e a razão sódio/potássio.
Isso se conecta a um tema maior: o padrão alimentar DASH, construído justamente sobre potássio, cálcio e magnésio, é a intervenção dietética com melhor evidência para pressão arterial. Você não precisa montar dois planos diferentes — o guia completo da dieta DASH cobre a mecânica de sódio e potássio que também ajuda aqui.
O Que Comer em Cada Fase do Ciclo
Se você levar uma única tabela deste guia, leve esta. A ideia não é rigidez, é alinhar o prato com o que o corpo está fazendo naquela semana.
| Fase | Dias (ciclo de 28d) | Hormônio predominante | Foco nutricional | Alimentos-chave |
|---|---|---|---|---|
| Menstrual | 1–5 | Estrogênio e progesterona baixos | Repor ferro e energia | Carnes magras, feijão, lentilha, folhas escuras, vit. C junto |
| Folicular | 6–13 | Estrogênio subindo | Proteína e energia para treino | Ovos, peixe, leguminosas, tubérculos |
| Ovulatória | 14–16 | Pico de LH | Antioxidantes e fibras | Frutas vermelhas, crucíferas, azeite |
| Lútea | 17–28 | Progesterona alta | Magnésio, cálcio, potássio, B6 | Lácteos, abacate, banana, cacau 70%, leguminosas, castanhas |
Duas notas sobre a fase lútea, que é onde a TPM acontece:
Primeiro, com o gasto energético de repouso elevado em 5–10%, comer um pouco mais não é falha de disciplina — é resposta fisiológica. Fazer déficit calórico agressivo nessa janela costuma aumentar o desejo por doce e o desânimo. Se você está em emagrecimento, planejar o déficit para as fases folicular e ovulatória e uma manutenção na lútea é estratégia mais sustentável do que lutar contra o corpo. O guia do déficit calórico explica como ajustar isso segundo por segundo sem sabotar o resultado.
Segundo, na fase menstrual há perda real de ferro — cerca de 15 a 30 mg por ciclo. Mulheres com fluxo intenso são grupo de risco para anemia ferropriva, e fadiga durante a menstruação não é “normal”. Se cansaço aparece todo mês, vale checar ferritina: o guia completo do ferro e da anemia traz os valores de referência que importam.
O Que Não Funciona (e Você Não Precisa Comprar)
Esta seção existe porque metade do mercado de “suplemento para TPM” vive de coisas que não passaram por ensaio clínico decente.
| Intervenção | Situação real da evidência |
|---|---|
| Óleo de prímula (GLA) | Revisões Cochrane não encontraram superioridade sobre placebo para TPM. Ainda vendido como “essencial para TPM”. |
| Megadoses de vitamina B6 (>200 mg) | Risco de neuropatia periférica sem ganho adicional. A faixa útil é 50–100 mg. |
| “Teste de saliva hormonal” | Não tem validação para diagnosticar TPM. O diagnóstico é clínico, por registro de sintomas ao longo de 2 ciclos. |
| DETOX / “limpeza hormonal” | Conceito sem base fisiológica. Quem faz o trabalho são fígado e rins, sempre. |
| Progesterona creme “natural” | Evidência insuficiente; produtos sem padronização de dose. |
| Chá de amora / “regulador” sem procedência | Sem dados clínicos; risco de contaminação e interação. |
O ponto não é ceticismo pela erva — Vitex tem ensaio no BMJ, e isso importa. O ponto é que “natural” e “estudado” são coisas diferentes. Use a régua do ensaio clínico, não a do rótulo.
Plano Prático de 4 Semanas
Se você tem TPM e quer testar a abordagem nutricional, este é um roteiro simples. Um ciclo é pouco para julgar — reserve dois.
Semana 1 — Medir, não mudar. Anote sintomas diariamente (humor, inchaço, dor, sono, desejo por comida) numa escala de 0 a 10. Você precisa da sua linha de base antes de mexer em qualquer coisa. É esse registro que mostra o padrão temporal da fase lútea — e é ele que um ginecologista vai pedir.
Semana 2 — Base do prato. Sem suplemento ainda. Aumente cálcio (3 porções de lácteos ou equivalentes), potássio (vegetais e leguminosas em todas as refeições) e magnésio (cacau 70%, castanhas, folhas escuras, abacate). Reduza ultraprocessado, que é a principal fonte de sódio escondido.
Semana 3 — Ajustes e movimento. Cafeína só antes das 14h. Rotina de exercício aeróbico 3x/semana — revisões sistemáticas recentes mostram redução consistente, ainda que modesta, dos sintomas de TPM, e o efeito sobre humor é bem documentado. A Cochrane inicialmente considerou a evidência insuficiente por falta de estudos bem desenhados; meta-análises posteriores apontaram benefício.
Semana 4 — Avaliação e, se fizer sentido, suplementação. Compare com a linha de base. Se os sintomas físicos persistem, é razoável considerar magnésio (200–360 mg, forma quelada) e cálcio até completar 1.000 mg/dia. Vitex só se não houver uso de anticoncepcional hormonal e com aval profissional — e o efeito leva 2 a 3 ciclos.
Se o que persiste são sintomas de humor severos, com prejuízo em trabalho, estudo ou relações, a discussão muda de eixo. Aí não é nutriente: é avaliação de TDPM e as opções com melhor evidência são outras. Vale a mesma lógica de área: entender como cortisol e eixo do estresse afetam humor e sono ajuda a não confundir quadros que se parecem mas têm tratamentos distintos.
Quando Procurar Ajuda Médica
Procure ginecologista ou psiquiatra se:
- Os sintomas prejudicam trabalho, estudo, relações ou sua capacidade de funcionar — não é “só TPM”
- Há tristeza profunda, desesperança, pensamentos de morte ou autodepreciação na fase lútea → procure ajuda imediatamente
- O padrão sugere TDPM (critérios DSM-5: 5 ou mais sintomas, sendo ao menos um de humor)
- A dor menstrual não cede com anti-inflamatório comum — pode indicar endometriose ou outra causa secundária
- Os sintomas não têm relação temporal com o ciclo — nesse caso, a investigação é outra
O tratamento com melhor evidência para TDPM envolve intervenção específica, incluindo modulação serotoninérgica. Alimentação e hábitos são complemento da terapia, não substituto. Ser honesta sobre isso é parte do que faz a diferença entre aliviar um pouco e resolver de verdade.
E se o seu contexto é de transição hormonal — pré-menopausa com TPM somada a fogachos e ciclo irregular —, vale entender a nutrição na menopausa e o que muda nessa fase, porque as estratégias se sobrepõem bem mais do que parece.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Qual nutriente tem mais evidência contra a TPM?
O cálcio é o nutriente com melhor evidência. Um estudo com 497 mulheres que receberam 1.200 mg/dia mostrou redução de 48% na pontuação total de sintomas em três ciclos (Thys-Jacobs, Am J Obstet Gynecol 1998), com revisão Cochrane favorável em 2000. Magnésio e vitamina B6 vêm em seguida, com evidência moderada e boa resposta na combinação dos dois.
Alimentação resolve a TPM sozinha?
Resolve a maior parte no caso da TPM comum, especialmente sintomas físicos como retenção e inchaço. Não resolve o TDPM — a forma grave, que afeta 3 a 8% das mulheres e tem critérios diagnósticos próprios. Nesse caso, a alimentação é complemento de tratamento médico específico.
Magnésio funciona mesmo para cólica e inchaço?
Sim, com evidência razoável. Um ensaio com 200 mg/dia mostrou redução da retenção de líquido (Walker, J Womens Health 1998), e a combinação magnésio 250 mg + B6 40 mg superou o B6 isolado em 126 mulheres (Fathizadeh, 2010). Prefira formas queladas (citrato, bisglicinato) e fique atenta ao efeito laxativo acima de 350 mg.
Posso tomar Vitex com anticoncepcional?
Não é recomendado. O Vitex atua sobre a via dopaminérgica e a prolactina, o que cria potencial de interação com anticoncepcional hormonal, medicações de fertilidade e fármacos dopaminérgicos. Existe ainda ausência de dados de segurança na gravidez e amamentação. A erva tem o melhor ensaio clínico entre as opções fitoterápicas — mas não é para todo mundo.
Existe dieta específica para cada fase do ciclo?
Sim, e é mais útil do que parece. Na fase menstrual, o foco é repor ferro (perda de 15 a 30 mg por ciclo). Na fase lútea, priorize magnésio, cálcio, potássio e B6 — e considere que o gasto energético de repouso sobe 5 a 10% nessa janela, o que explica o aumento real da fome. Fazer déficit calórico agressivo justamente na fase lútea costuma piorar humor e desejo por doce.
[CAPTURA DE LEAD: Sugerir download de um diário de sintomas do ciclo (planilha de 2 ciclos) + assinatura da newsletter — é exatamente o registro que o plano prático pede e que o ginecologista vai solicitar]
Referências:
- Thys-Jacobs S, Starkey P, Bernstein D, Tian J. Calcium carbonate and the premenstrual syndrome: effects on premenstrual and menstrual symptoms. Am J Obstet Gynecol. 1998;179(2):444-452.
- Thys-Jacobs S, Starkey P, Bernstein D, Tian J. Calcium supplementation in the treatment of premenstrual syndrome. Cochrane Database Syst Rev. 2000.
- Bertone-Johnson ER, Hankinson SE, Bendich A, Johnson SR, Willett WC, Manson JE. Calcium and vitamin D intake and risk of incident premenstrual syndrome. Arch Intern Med. 2005;165(11):1246-1252.
- Wyatt KM, Dimmock PW, Jones PW, O’Brien PM. Efficacy of vitamin B-6 in the treatment of premenstrual syndrome: systematic review. BMJ. 1999;318(7195):1375-1381.
- Walker AF, De Souza MC, Vickers MF, Abeyasekera S, Collins ML, Trinca LA. Magnesium supplementation alleviates premenstrual symptoms of fluid retention. J Womens Health. 1998;7(9):1157-1165.
- Fathizadeh N, Ebrahimi E, Valiani M, Tavakoli N, Yar MH. Evaluating the effect of magnesium and magnesium plus vitamin B6 supplement on the severity of premenstrual syndrome. Iran J Nurs Midwifery Res. 2010;15(Suppl 1):401-405.
- Schellenberg R. Treatment for the premenstrual syndrome with agnus castus fruit extract: prospective, randomised, placebo controlled study. BMJ. 2001;322(7279):134-137.
- Sohrabi N, Kashanian M, Ghafoori SS, Malakouti SK. Evaluation of the effect of omega-3 fatty acids in the treatment of premenstrual syndrome. Complement Ther Med. 2013;21(3):141-146.
- Daily JW, Zhang X, Kim DS, Park S. Efficacy of ginger for alleviating primary dysmenorrhea: a systematic review and meta-analysis. J Altern Complement Med. 2015.
- American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Premenstrual Syndrome (PMS) — FAQ. ACOG.
- Webb P. 24-hour energy expenditure and the menstrual cycle. Am J Clin Nutr. 1986;44(5):614-619.